domingo, 27 de julho de 2008

Pássaros nos ombros de São Francisco

Talvez não seja a melhor hora para escrever. Passa da uma da manhã. Mas eu não consigo evitar. Há vários dias terminei de ler A insustentável leveza do ser. Hoje assisti ao filme Closer (passou na Globo). Eu duvido que Patrick Marber, o roteirista e autor da peça que deu origem ao filme não conheça Milan Kundera.

Às vezes, e isso está ficando cada vez mais freqüente, não me identifico como parte dessa espécie. Essa; humana. Tomas, Tereza, Sabina, Franz. Personagens de Kundera. Daniel, Anna, Alice, Larry. Personagens de Marber. Personalidades diferentes, mas com um forte traço em comum. Eles mentem. Para outros, para si mesmos. Alguns mais, outros menos. Mas todos vivem em castelos de areia, fabricando realidades interiores na tentativa de encontrar sentido para a vida e para os relacionamentos.

Eu não entendo. É complicado, sim, eu sei, e já senti na pele. Kundera me ensinou algumas coisinhas. A harmonia de pensamentos e julgamentos não obedece à vontade, os erros de comunicação são mais freqüentes do que se imagina. Mesmo quando há diálogo, e diálogo aberto, sincero. É um tal de não saber o que dizer e o que perguntar que deixa as mentes em polvorosa.

Vejamos. O livro, o filme. Ambos tratam do relacionamento humano. A paixão e as suas artimanhas, as inseguranças, os planos pessoais em choque com as conseqüências de uma vida a dois, traições, mentiras. O passar do tempo, a coragem (ou covardia) necessária para enganar, o efeito dominó das mentiras e verdades que se conta. O peso da liberdade. A leveza do comodismo. Ó céus! A humanidade está há séculos nisso. É a razão primordial da guerra por poder, da busca por riqueza. Conquistar, manter, fugir disso.

Assusta ver que o mundo ainda está assim. A vida presenteia com momentos mágicos, encontros inesperados e surpreendentes, sintonias únicas, químicas instantâneas... As criaturas vão lá e transformam tudo em jogo de perde e ganha, em competições mesquinhas, teatro de fantoches. Fecham-se as cortinas. Lá se vai uma oportunidade de aprender, de trocar. Ou, ainda: Força-se uma convivência desnecessária e egoísta, pretensiosa no seu desejo de eternidade.

Por algum tempo ainda vou permanecer fora disso. Mas isso pode mudar amanhã, ainda mais se um Jude Law atravessa a rua na minha frente. Uma coisa que aprendi é que em 24h eu posso estar onde ontem eu jamais estaria. Mas tenho cá meus receios de cair nessa roda. Eu tenho prazer em ser sincera. Comigo, com meus sentimentos. Curto a estabilidade emocional que conquistei. E gente apaixonada perde a noção. Não tenho pressa em ver chegar por aí o amor da minha vida. Diferente do que foi há 300 anos, quando a sistemática era outra, hoje, se nos encontrarmos de novo, vai ser tudo diferente.

Começar é fácil. Deixar-se levar, ver acontecer, tranqüilo. Obedecer à vontade quando se é livre é permitido. E depois? A estabilidade costuma gerar expectativas, e não adianta fugir disso. No máximo administrar com cautela. Os dias passam, podem surgir novos brilhos em novos olhares, e a linha entre não querer e não evitar magoar é tênue até demais. O conceito de magoar já não é unanimidade. De um jeito ou de outro; acontece. Acontece?

Eu não quero contar o final do livro, nem do filme. Também não são tão surpreendentes assim. O problema talvez seja esse. A humanidade segue cometendo esses mesmos erros, contando as mesmas mentiras, reconstruindo os mesmos castelos, à base de expectativas furadas e promessas involuntárias. A simplicidade do relacionamento humano perde-se num emaranhado de regras não-escritas de um jogo não-declarado, onde não há vitória se alguém perde.

8 protesto(s):

Anônimo disse...

Well its nice.


student loan forgiveness

Anônimo disse...

Considering the fact that it could be more accurate in giving informations.

Gabi disse...

Esse filme mexeu muito comigo. Talvez por fugir aquele roteiro conto de fadas onde no final tudo dá certo. Nem sempre na vida é assim. Achei uma obra bárbara. O livro que citaste ao longo do post eu não conheço. Mas ficou a dica. Irei lê-lo (ainda mais que não contaste o final). Adoro tudo que fala das relações humanas.
Beijos!
Bom domingo

Raquel disse...

Eu sempre insisti em tentar desvendar essa capacidade humana de complicar algo tão belo e simples quanto relacionamentos. Tudo bem, nem sempre tudo é um mar de rosas, é bem verdade. Mas quando não é, por que nos prendermos a um fracasso, sem perspectiva de continuar adiante? Destruímos nosso mundo e demoramos a reconstruí-los, porque cremos que paixão, amor e relacionamentos em geral são irracionais.

Continuemos evoluindo, então!!

:*
P.S.:
Adorei o título do post, o Kundera é ótimo com metáforas.

Anônimo disse...

Oi amiga! Parabéns... Teu blog está lindo... Te adoro muito... ah... não sei se já te disse isso mas você nasceu para o jornalismo... beijo

Adrenalina, Cafeína e Endorfina disse...

demais o blog
;*

Cadinho RoCo disse...

De repente tudo surge tão estranho mas ao mesmo tempo tão previsível. Fato é que em nós o instante de cada instante busca nossa participação sempre exposta a inexoráveis surpresas.
Cadinho RoCo

clary disse...

vi o filme, no mesmo dia q tu, eu tava em uma fase triste...

odeio essa coisa de mentir, principalmente aqueles que mentem pra si mesmos por motivos idiotas e acabam afetando os outros... mas d qq forma, gostei do filme e me identifiquei em momentos diferentes com 3 dos personagens (todos menos a anna). tenho gostado cada vez mais de filmes simples assim, mesmo não gostando do final