quarta-feira, 23 de julho de 2008

Camila, Camila

Quando pensei em criar um blog, uma das primeiras coisas que passou pela minha cabeça foi: "Oba! Um lugar pra publicar os textos do Pois é!" Então, hoje eu começo uma missão sem data pra terminar. Munida das autorizações de meus colegas Dani e Giovani, vou publicar aqui as matérias que já saíram no jornal Pois é desde que entrei para a equipe, em fevereiro, na edição 14. Serão os textos completos e originais, acompanhados de fotos. Com a vantagem de que aqui é colorido e posso fazer links, hehe. Para quem tem o jornal impresso em mãos pode não ser nada. Mas para aqueles que gostariam de ler e moram longe de São Leopoldo, é uma mão na roda.

Então, seguindo a cronologia, vou começar pela edição que foi para as ruas em março. Por enquanto, fique com a entrevista de Camila Arócha, nossa Leitora com Alguma coisa do Pois é nº 14. Boa leitura!

* * *
Texto: Dani Bittencourt
Fotos: Giovani Paim

O que se diria de uma mulher que, aos 25 anos, é formada em
Jornalismo, faz mestrado, paga as próprias contas, é casada e planeja ter filhos em breve? No mínimo, que é bem sucedida. Quem vê a alegria dela nem imagina que sua história tinha tudo pra dar errado. “Lembro dos meus 3 anos de idade, da minha mãe se defendendo com um banquinho e meu pai com uma faca, tentando matá-la. São coisas que nenhuma criança consegue esquecer”.

A nossa leitora com alguma coisa dessa edição é Camila Arócha. Trabalha desde os 16 anos, mora sozinha desde os 21. Deu aula pra alunos carentes no cursinho pré-vestibular Zumbi dos Palmares, em Cachoeirinha, e só largou por causa do mestrado. Uma mulher linda com sorriso contagiante. Numa tarde de poucas nuvens, nos encontramos numa lancheria da Unisinos. A conversa foi tão agradável que parecíamos velhas amigas.

Nosso primeiro contato com a Camila foi através de um e-mail que ela mandou pro poise@makbo.com.br [agora é redacao@poise.com.br]. Anexado, um artigo sobre violência contra a mulher. Fomos ouvir o que ela tem pra dizer.

Como foi a tua infância?

Eu nasci em Recife. Meus pais são gaúchos e tinham ido pra lá buscando independência. Eram hippies, totalmente inconseqüentes. Quando nasci meu pai já espancava minha mãe. Logo depois ela engravidou de novo e teve um aborto; ficou louca e foi internada num hospício. Meu pai sumiu, já drogado. Eu, criança, fiquei com uma família totalmente diferente da minha, que rezava antes de dormir, que tinha outra realidade. Depois minha mãe saiu do hospício, conheceu meu padrasto e voltamos pro sul.

E teu pai?

Voltou a nos procurar depois, achando que ainda mandava na família. Eu tentei gostar dele. Perdi dois anos de colégio tentando ajudá-lo, achando que existia uma recuperação. Hoje não acredito mais nisso.

Por quê?

Olha, a família inteira tentou de todas as formas e nada adiantou. Nunca teve fim e não vai ter. Eu sei que não é porque ele quer, mas realmente não entendo. Ele perdeu tudo. Os filhos, a família, as mulheres. Tem 50 anos e não tem um emprego, uma casa pra morar.

O que tu sente por ele, hoje? Existe relação entre vocês?

Ainda nos vemos. A gente briga, mas se ama, porque afinal ele é meu pai. E apesar de toda violência dele com asmulheres, nunca levantou a mão pra mim. Ele tem muitoorgulho de mim e muita vergonha dele como homem, porque ele é um nada. Às vezes a nossa família não é como queremos, mas é a nossa família. Fazer o quê?

Palavras carregadas de sinceridade. Deu pra perceber que ela é o tipo de pessoa que sempre vê o lado bom, que tem a luz suficiente pra mudar o mundo. E o mais curioso é que isso não infla o ego dela.

E sobre a violência?

A sociedade não percebe que acabar com isso é benefício pra todos. Se não pela parte humana, pela financeira, então. Tudo gera um custo social muito grande. Vão pro hospital, precisam de atendimento. A mídia deveria dar um espaço de discussão maior pra isso, e não tapar o sol com a peneira. A mulher tem seus direitos, mas muitas não sabem disso.

Tu teve convicção quando optou pelo Jornalismo. Foi por essa consciência social, vontade de ajudar os outros?

Meu sonho sempre foi jornal impresso. Mas também quero ser professora. Vejo que muitas meninas do jornalismo não querem ir pro campo, querem ser apresentadoras, amam a Cristina Ranzolin (apresentadora da RBS TV). É difícil encontrar uma estudante que queira escrever, produzir um documentário. Eu tinha colegas que pintavam as unhas na sala de aula. Parece que quanto mais as pessoas estudam, mais egoístas elas ficam.

A nossa heroína trabalhou no jornal Correio de Gravataí. Entre 7 ou 8 homens na redação, era a única mulher, contratada pra fazer, adivinha? O Caderno Mulher. Com o tempo transitou também entre economia, política, polícia e afins. “O preconceito é mais visível porque as mulheres deixam acontecer. Nós temos espaço. Eu tive que buscar o meu, até pra almoçar com eles”.

E hoje, como ficou tua vida?

Ah, estou casada, super feliz. Conheci meu marido, nos apaixonamos e em 3 meses fomos morar juntos. Já dura dois anos e é um amor tranqüilo. Agora estamos planejando ter filhos, construir a nossa família.

Sorrisos de ambos os lados encerraram a conversa. Depois da despedida e do abraço, voltei pra redação com uma frase na cabeça: “Nossa origem e história refletem como vamos tratar as pessoas”. Talvez. Mas ainda acredito que essa grande mulher buscou nela mesma toda força de vontade. Uma personalidade que não foi corrompida por experiências ruins. É por histórias assim que o jornalismo vale a pena.

2 protesto(s):

Raquel disse...

"Ele tem muito orgulho de mim e muita vergonha dele como homem, porque ele é um nada"

Gostei dela. Um retrato da mulher como deveria ser. Convicta, decidida, inteligente e bem resolvida amorosamente. É por essa condição de eterno feminino que luto, mesmo que em pequenas atitudes.
A maioria das mulheres tem vergonha em ser o que são. A prova disso é a tentativa de se igualar ao sexo masculino. É um descontentamento disfarçado de pseudo-feminismo.

Um viva a todas as Camilas, Vanessas e Raquel (no plural fica feio hahah)

:*

Gabi disse...

Mulheres como ela é que nos trazem orgulho de nascer "fêmea"
como diz rita lee: "mais macho que muito homem".
Uma delícia o texto, a conversa...
Um exemplo de vida!
Parabéns para ambas, entrevistadora e entrevistada!