terça-feira, 9 de setembro de 2008

Considerações

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.




Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra

e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
– Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.

Poeta do finito e da matéria,

cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começa-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.


(trecho de Consideração do poema, de Carlos Drummond de Andrade)


As horas não tem mais o mesmo ritmo, e na inércia da tarde morna ficam as lembranças, os planos, a trilha sonora, a saudade e a expectativa.

Será que vai ser? Você também vem? Teremos tempo?

As obrigações ficam em segundo plano quando a curiosidade pelo que ainda está por vir é maior. E quando os pensamentos não encontram foco, e nadam numa imensidão de sentidos, perfumes e sons, a profundidade de campo é mínima. Insuficiente.


A idéia é só o começo do caminho.

1 protesto(s):

Gabi disse...

Eu adoro Drummond. Ele realmente me completa.
E o que tu escreveu tbm. extremamente belo.
Ainda mais para mim que sou campeã em me perder em meus pensamentos.

;)