quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Todas as letras de A-N-A N-E-J-A-R

Seguindo a sequência da edição 14 do Pois é, aí vai nossa matéria de capa daquele mês.

* * *

Texto: Dani Bittencourt e Giovani Paim
Fotos: Giovani Paim

A capa dessa edição é a mulher dos “olhos egípcios com gosto de amoras”, como definiu o marido. De descendência italiana, alemã e índia, foi batizada Ana Lúcia da Silva. Brasileira. Gesticula muito ao falar, como quem quer se fazer entender. Também fala muito. E sorri outro tanto, com muita receptividade. É uma mulher apaixonada, mas sem aquela cegueira da paixão. Tudo na Ana é de carne e osso.

Mulher, jornalista, esposa, mãe. Quando se formou na profissão, em 1995, pela Unisinos, largou o emprego com o qual bancava a faculdade, sem nenhum outro em vista. “A família disse que eu era louca, mas eu queria viver de jornalismo”, defende. E deu certo. Ana foi trabalhar no jornal Vale dos Sinos, na editoria de política, só que ela não sabia nada sobre o assunto. “Mas a gente aprende. Hoje digo que quem fez política pode fazer qualquer coisa, porque acaba abrangendo tudo”.

Foi nessa época que ela conheceu o marido, Fabrício Carpinejar (poeta e coordenador do curso de escritores e professor do curso de rock da Unisinos). “Eu estava entrando no VS e ele saindo pra trabalhar na Câmara. Nos conhecemos nessas sessões solenes. Tínhamos tanto pra conversar que ficávamos juntos até os bares fecharem de madrugada. Depois de três semanas o Fabrício disse que não tinha mais dinheiro pra pegar táxi de volta pra Porto Alegre (ele morava na capital). Eu respondi que também não tinha dinheiro pra ir pra lá. Não conseguíamos nos desgrudar, então decidimos morar juntos”. Em 23 de outubro de 98, no dia do aniversário dele, Ana passou a assinar Ana Lúcia Nejar.

Não deu medo de perder a identidade pelo Fabrício ser um poeta famoso e tal?
Brinco que não tenho sobrenome; sou a Ana, 'esposa do Carpinejar'. Mas não me importo, é um referencial. Nossas carreiras foram crescendo ao longo do nosso casamento e me orgulho dessa trajetória. Ele se focou mais em família, na mulher. Dizem que ele tem a alma feminina demais... É porque eu sou a alma masculina dele.

Então as mulheres querem um homem com alma feminina?
As mulheres exigem demais dos homens. Muitas dizem que não existe homem sensível, mas quando saem com um cara reclamam que ele não tem pegada. Querem que fale das luzes cor de mel que ela fez, mas que também mate barata e puxe pelos cabelos na hora da cama. Só que esse homem não pode nem jogar futebol na quarta de noite! Cada um deve ter seu espaço. Mulheres, liberem seus homens pro futebol!

(Entre risos, perguntamos se ela também gosta do esporte)
Quando vi o Internacional ser Campeão do Mundo e fui pra rua festejar, com toda aquela gente vibrando, foi como um orgasmo sem que eu precisasse fazer sexo. Lá em casa somos todos colorados, com direito a carteirinha do time. Futebol desopila, extravasa. Ir ao estádio é nosso programa de família.

Ana e Fabrício são pais do Vicente, de seis anos, e que tem uma irmã emprestada, a Mariana, de 14 (filha só do poeta). Apesar do susto, pelo filho não ter sido planejado, Ana diz que foi na hora certa. “Depois dele nossa vida deslanchou, tudo acontece melhor”. Sobre a possibilidade de vir mais uns pimpolhos, avisa: “Fechei a fábrica. Já estamos preenchidos. O Vicente é uma alegria só, uma surpresa a cada dia, sem contar que a Mariana seguido vem nos visitar. Nos completam”.

Ela contou que dia desses estavam fazendo compras no supermercado quando o filho começou a ler. “Nossa, foi uma emoção tão grande que até chorei. Ofereci um bombom pra ele, mas quando leu o rótulo disse 'Mas é de creme! Não quero'. Ou seja, não posso mais enrolá-lo. Quem lê é livre, isso é algo que ninguém pode te tirar”.

A leitura realmente liberta e é inteiramente ligada à tua profissão, jornalista. Tu acha que o jornalismo pode mudar o mundo?
Não pode mudar, mas sacudir as pessoas e fazer com que pensem diferente. Nesse ponto o jornalismo atual deveria ser mais opinativo, porque o leitor pode escolher concordar ou não, ele não é burro. O que devemos fazer é dar acesso à informação, seja num canal evangélico, num jornal alternativo ou na Rede Globo. As pessoas precisam saber o que está acontecendo pra interagir.

Nisso falamos um pouco sobres coisas banais da vida. Sobre as manchetes tolas nas capas de sites, de jornais, mas que, no fundo, acabam sendo interessantes para se estar por dentro do assunto. O negócio é se comunicar. Divagamos mais um pouco e voltamos ao papo de mudar o mundo.

Ana, e a política? É capaz de mudar alguma coisa?
Pode melhorar. As pessoas não odeiam política, odeiam a politicagem. Política se faz o tempo todo, em casa, na família, na escola, no trabalho. Também temos que pensar o que significa mudar o mundo. Hoje são tantas mazelas e carências que fica difícil definir isso. Onde investir primeiro? Mas, se o mundo está assim, também é porque tem uma corrente que quer isso.

E quem é a jornalista Ana Nejar?
Sempre gostei de escrever e desde pequena gostava de notícias. Em 85 ganhei um concurso do jornal Zero Hora e quando fui buscar o prêmio, conheci a redação do jornal, aquela correria. Foi aí que pensei, 'eu gostaria de fazer isso'. Só depois aprendi que em jornal diário tu não tem fim de semana, feriado, nem churrasco com a família. É estranho, mas a pessoa fica apaixonada, e, até certo ponto, ela agüenta aquela coisa da babá do teu filho ligar, dizendo que ele está com 39º de febre, e tudo que tu pode fazer é mandar dar um analgésico e pedir que espere, porque antes tem que fechar o jornal.

Ana viveu na pele 10 anos de jornal diário. Em 2005 saiu do VS, convidada pra assessorar o vereador Aníbal Moacir da Silva. Ficou até o início desse ano, quando assumiu como assessora de comunicação da Prefeitura de São Leopoldo.

Que tipo de jornalista tu é hoje e o que é o jornalismo atualmente?
Olha, eu ainda tenho tesão pela notícia. É isso que não se pode perder. Mas hoje o jornalismo perdeu muito da sua razão. Não se tem contato, aquela coisa de se encontrar com a fonte, ou telefonar, até pelo uso da internet. E é esse contato cara a cara que segura a relação jornalista/fonte. Hoje o jornalista senta, escreve um texto e larga lá, tá feito. Não tenta cativar o leitor. É por isso que gosto do jornalismo opinativo, e no fundo foi isso que me fez ter interesse pela área. Sempre gostei de histórias. E sempre tive noção de que as coisas são parciais. Meu diferencial é que tenho um olhar focado pro lado político, marketeiro. E eu sempre acredito no que eu vendo. Se eu não acreditar, não faço.

Tu é uma mulher extremamente apaixonada. Tuas paixões são o jornalismo, família e futebol, isso?
É, mas também tem a gastronomia. Faço curso na Unisinos há algum tempo. O ruim é que gastronomia hoje virou coluna social, artigo de luxo. E deveria ser o contrário; é uma manifestação humana, agrega pessoas, traz lembranças. Aposto que o prato preferido de vocês é algum que a mãe ou a vó fazem. Essas tradições são tão bonitas que deveriam ser mais cultivadas.

A 'Ana Mulher' é mais vaidosa ou mais jornalista?
Os dois. Sou uma jornalista vaidosa, sou mulher. E todas deveriam ser. Vaidade faz bem pra pessoa. E tem que parar com esse estereótipo de que jornalista é tudo porra-louca; com jeans velho, tênis rasgado, que fuma, bebe.

(risos) E que Carpinejar não nos ouça, mas falar com a Ana foi poesia. Pura. Mel no favo. Cecília Meireles, Drummond, tudo na mesma rima. Verdadeira. A história é essa. Real. Tchau.

1 protesto(s):

Anônimo disse...

E não é que elas (as matérias)combinam com links? ;)

beijo